Tudo o que consumimos e nos rodeia tem uma origem, uma história que está “impressa” na natureza desse objeto. Quer nós escolhamos vê-la, ou não, ela está lá.
Ou seja, toda a matéria tem uma realidade e essa realidade é feita de algumas coisas que sabemos sobre ela e de outras que não sabemos bem… Por exemplo: o ovo que comi ao almoço, foi engendrado no interior de uma galinha através de um processo biológico. Sei que o ovo é parte do sistema reprodutor desse animal, talvez saiba também que a galinha era estéril, só daria mesmo ovos; que comia farinhas geneticamente modificadas; que lhe administravam regularmente antibióticos; que vivia num espaço minúsculo de um enorme armazém, sem nunca ter ido à rua; que vivia acompanhada de milhares de outras galinhas, etc. Posso saber, – mesmo sem nunca ter pensado bem no assunto, – que o ar era irrespirável dentro daquele lugar, que muitas doenças se propagam naquela atmosfera, posso até imaginar facilmente que os empregados daquela fábrica odeiam o seu trabalho, que quando chegam a casa têm vontade de vomitar, que aquele senhor em particular, que foi buscar o ovo que eu comi, quando chega a casa, fica uma hora no duche a passar sabonete pelo corpo para fazer partir o cheiro, a culpabilidade e o nojo. E também porque aquele tempo é também o tempo que ele precisa para ficar em silêncio porque não consegue ainda falar com a esposa que o espera na cozinha. Todas as manhãs ele passa em frente à antiga capoeira da sua quinta, agora vazia, e dá-se-lhe um nó no estômago…
Pronto, chega.. Já perceberam onde eu quero chegar.. Sim, a história daquele homem que apanhou o ovinho que agora está em decomposição dentro de mim, também pertence à natureza daquele ovo. Assim como o de todos os senhores e senhoras que o trouxeram da aldeia até o meu saco das compras.
Mas esta história é muito maior.. Porque, também faz parte da natureza do ovo que eu ingeri, — e que agora não é nada mais, nada menos, do que parte da minha própria natureza, — todos aqueles implicados na construção daquele aviário, da pessoa na bolsa de valores a participar na saúde financeira da empresa, e também do personagem sentado atrás do seu écran de computador a desenhar a campanha de publicidade que, por acaso eu vi à entrada do supermercado e me fez pensar que eu tinha vontade de um ovo estrelado.
Ok.. Isto parece, visto assim, muita coisa sobre as quais ter Consciência. Vão provavelmente dizer-me que é impossível ter consciência disso tudo, e logo, “não temos nada a ver com o que aconteceu”, nem à galinha, nem ao operário, nem ao dono milionário da empresa!…
Talvez… talvez seja verdade e seja até impossível saber o que aconteceu no processo de exploração, de extração, implicados na produção de tudo o que consumimos.
Mas o que é certo é que todas as ações têm consequências e que todas as nossas ações carregam Responsabilidade (=escolha.. liberdade..). Se ingerimos algo que, para ser produzido, causou sofrimento, estamos a Escolher ingerir a causa ou o produto desse sofrimento e portanto a tornar Nosso esse “crime”, nesse momento escolhemos incarnar (fazer parte da carne) o próprio “crime”.
É então, apenas natural, quando diariamente consumimos, centenas de produtos dos quais ignoramos a natureza, o fato de sentirmo-nos mal com nós próprios.
As ações negativas realizadas para a produção e extração de uma certa matéria, mesmo que tenham acontecido meses ou muitos anos antes, têm consequências que se repercutem até hoje e pelo futuro fora. Uma dessas consequências é o mal que nos fazem ao serem, por nós ingeridas e consumidas. Não é magia mas lógica.
No momento da ingestão, nós estamos a permitir que toda essa realidade (que a conheçamos de perto ou não) faça, a partir desse momento, literalmente parte de nós. Somos sem sombra de dúvida cúmplices dos “crimes” cometidos a montante e responsáveis dos efeitos nefastos que advirão dessa ação, quer, por causa da cumplicidade, quer por causa da consequência da ingestão de produtos que o nosso organismo tem dificuldade em digerir.
Podemos fingir não ver, fingir não saber dessas ações e consequências, mas a verdade é que: ou, já ouvimos falar delas; ou, até sabemos perfeitamente que assim é; ou, instintivamente suspeitamos que assim seja…
Mas seja como for, mesmo que até possamos enganar a parte consciente do nosso ser, não se pode enganar o SER sensível que vive em nós. Aquele que não precisa de palavras para SER, aquele que respira, que sente e que nos anima (dá a energia e a força). Não se pode ‘enganar’ esse SER sobre a natureza do que lhe damos como alimento.
