L. era uma lagartinha como tantas outras. Tinha nascido de cabeça para baixo, de um pequenino ovo, deixado pela mãe, preso a uma folha verde. Quando se sentiu pronta furou-o e espreitou cá para fora. Pata ante pata foi saindo pelo buraquinho do ovo. Sentia pela primeira vez o vento e os odores deliciosos que lhe abriam o apetite. Começou por comer a própria membrana redonda de onde saíra, de forma a levar com ela, para nunca o esquecer, o sabor aconchegante da sua origem. Mas pouco depois descobria também o sabor fresco da própria folha onde caminhava. E assim foi ela, comendo e comendo e rastejando e crescendo e comendo e comendo…

 

Como ela, tantas outras lagartas bebés nasciam e comiam e cresciam nas folhas suculentas das plantas.

 

As lagartas, comiam e comiam e comiam e cresciam e rastejavam, pelas suas pequenas vidas para um dia dormirem um sono profundo e acordarem muito diferentes. Quando acordam desse sono longo, tão especial, elas acordam com asas. Nas suas asas prendem-se cores e desenhos únicos e elas aprendem a voar. As lagartas são então borboletas de todas as cores. Não rastejam e já não passam o dia a comer o verde das folhas. Voam. Esvoaçam de flor em flor. Descobrem o sabor doce do pólen das flores do campo. E fazem mais do que isso. As borboletas espalham magia nos olhos das crianças e de alguns adultos. E vivem felizes porque deixam os meninos encantados. Quando envelhecem, as borboletas deixam cair as suas pintas e as suas cores para que os meninos as apanhem e as guardem para sempre nos seus corações. É por isso que quando estamos apaixonados, sentimos as borboletas a esvoaçar dentro do nosso peito.

 

Mas L. tivera um destino diferente. Ainda lagartinha, L. teve o azar de se cruzar com uma bruxa que logo a quis envenenar. A bruxa envenenava os seres despreocupados que seguiam felizes os seus caminhos, ela fazia isso porque ela própria estava mal, vivia atormentada desde há muito tempo por uma grande dor, de uma ferida que não queria ajuda para tratar. A bruxa tinha coberto todo o seu corpo e a sua alma e enrolado o próprio coração, em várias espessas camadas de pele, de forma que já nem a velha dor sentia, nem beleza alguma nela penetrava. Ela não gostava de ver os outros felizes. Isso lembrava-lhe um não-sei-quê que ela não podia mais experimentar. Então passava o dia a tentar envenenar quem podia. Cada vez que a bruxa passava um pouco de dor para outro ser, ela sentia-se menos sozinha e pensava sentir-se melhor. As borboletas e a eterna alegria que elas lançam pelo campo fora, era a coisa que mais a enervava.

 

Foi então esse ser doente que a lagartinha L. encontrou no seu caminho. A bruxa não se conteve e quis convencer a pequena lagarta que ela era um ser feio e inútil. Como ela não reagia, a bruxa continuou a discursar sobre a beleza que L. não tinha e para lhe provar, mostrou-lhe um espelho distorcido. Nele, L. vira uma imagem falsa e achou-se realmente feia. A bruxa insistia: “Já viste como és feia?! e passas o dia só a comer e a rastejar e a comer e a rastejar.”

 

A partir daquele dia, L. viveu angustiada. Acreditou no que a bruxa lhe disse e deu-lhe razão. “sou feia”, pensou ela.., eu queria era ser uma borboleta, ser linda e ter asas de todas as cores… E a partir daquele instante, a lagarta achava que só poderia ser feliz se fosse borboleta… L. perdeu a fome. Rastejava lentamente e quase não comia…

 

Mesmo assim, um dia chegou o grande sono para ela. L enroscou-se no seu casulo de seda e fechou os olhos cansados. Quando acordou reconheceu as belas asas que lhe tinham crescido no corpo. Tinha antenas e longas patas para aterrar nas flores do campo. Estava contente e esvoaçou pela primeira vez. Que bom que se sentia em ser enfim borboleta, em ser enfim bonita. Achava-se bela e tornou-se vaidosa. Em vez de voar para deliciar-se com os pólens doces das flores de todas as cores, L. só pensava em mostrar às outras borboletas e lagartinhas, o quanto era bela. Esquecia-se de comer. Ao fim da tarde andava zonza de fome e sede. E lá parava para comer, porque tinha de ser. Dormia porque tinha de ser, e depois recomeçava a sua dança em redor dos outros seres, para os ouvir exclamar, “Uauu! Que asas tão lindas que tu tens.” — Estranhamente, a cada dia que passava, e malgrado os elogios que ouvia, ela ia dormir cada vez mais triste.. Começou a duvidar do que ouvia, porque no fundo dela o veneno da bruxa continuava a ferver. “Ela era feia e era inútil.” O coração dela acreditava naquilo como sendo verdade e concluía que os outros a estavam a enganar. Estava certa que só diziam que as suas asas eram bonitas para que ela não ficasse muito triste. O que eles tinham, era pena dela, pensava L. Assim foi ela vivendo, triste à noite e ansiosa de dia.

 

Quando os meninos lhe corriam atrás, alegres e rindo ela não entendia e achava que eles a troçavam. L. refugiava-se então por entre as pétalas fechadas de uma qualquer flor murcha e lá ficava quieta, sozinha e magoada à espera que eles fossem embora. De tanto tempo passado no escuro, as cores vivas das suas asas esmoreceram. L. envelheceu e morreu sem pintas nem cores para largar nos olhos dos meninos e o bater das suas asas nunca viveu no coração de um homem.

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